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DOGGING

Matéria publicada na revista Playboy (comentadas por nossos editores, entre parêntesis).

Este é o nome da mais nova perversão sexual dos ingleses; transas em locais públicos, com um monte de desconhecidos olhando - ou participando.

Os eventos são combinados pela Internet, em sites que já contam com milhares de... membros.

Nossa repórter penetrou nesse mundo libertino.
Por Tata Dias


NOITE FRIA DE DOMINGO, temperatura entre 7 e 8 graus, chuva fina que cai nos campos de Yorkshire. É início de outono. Com banho recém-tomado, visto meu vestido preferido, negro, que vai até a altura dos joelhos e forma um decote em V na frente, exibindo o colo do meu peito. Casaco, meia-calça e sapato de salto alto, também pretos. Perfume. Sombra negra em minhas pálpebras. Na minha boca, batom vermelho. Prendo meus cabelos e saio de casa acompanhada de meu parceiro, carregando na bolsa uma dezena de camisinhas e um pacote de lenços descartáveis. (Que bom seria se todas as repórteres ao fazer uma matéria fizessem como esta, entrando no jogo para poder extrair o verdadeiro espirito da coisa)

Como indicado no pedaço de papel que tenho em mãos, impresso da internet, do site SwingingHeaven, pegamos a A576 e dirigimos cerca de uma hora e meia até Middleton, subúrbio de Manchester, a frenética capital do norte da Inglaterra. Pegamos a Old Road e, depois de cerca de 10 quilômetros, viramos à esquerda na Silburn Way. Chegamos ao nosso destino: o estacionamento do parque Silburn, que fica às margens de um lago.

É cedo. Não passam das 8 horas, mas já está escuro.O frio persiste.A chuva cessou. Estacionamos na frente da passagem que leva ao parque. Reclinamos o banco do carro e esperamos. Veículos entram e saem, estourando a escuridão com seus faróis e o silêncio com o roncar de seus motores. A idéia é espiar quem está dentro do carro, se homem, mulher ou casal. As máquinas vão se acomodando uma ao lado da outra.

Lá pelas 10 horas, o movimento cessa. Voltam a calmaria e a escuridão. Vez ou outra, ouvimos o grito de algum ganso que vem do lago. Uma garça sobrevoa nosso carro. Vôo rasante. Vultos de homens solitários perambulam pelo estacionamento.

Meia hora mais tarde, resolvemos descer do carro e passear pelo estacionamento. De repente, enquanto conversamos com um senhor, as luzes internas de um Jaguar se acendem.Em poucos minutos, o carro é rodeado por uma porção de homens. Junto com eles, eu e meu parceiro. Espio pela janela. O casal se beija intensamente. Línguas frenéticas. Ela levanta a saia, abre as pernas e exibe o sexo nu. Não veste calcinha. Num movimento brusco, parte para cima de seu companheiro. Monta em seu colo, desabotoa a calça, abre o zíper... Gemidos.

Sinto uma mão subir pela minha coxa.

Espremo meu corpo contra o veículo. Reconheço o calor da mão de meu parceiro. Gemidos se misturam, de dentro e de fora do Jaguar. Do meu lado, homens se acariciam. Outros, agitados, fumam um cigarro atrás do outro. Respiração ofegante.Um beijo úmido no meu ombro, na minha nuca. Com os olhos semicerrados, espreito o interior do Jaguar.

A mulher está entre o vão dos bancos dianteiros, com a bunda voltada para o banco de trás, onde está seu companheiro. A porta do outro lado está aberta. Um sujeito entra no carro. Enquanto o de trás a penetra, o outro apalpa seus seios, espreme-os, beija-os e, em seguida, coloca seu sexo na sua boca - o que ela aceita.

A mão de meu parceiro adentra minha calcinha. Enquanto me toca, ele sussurra ao meu ouvido: "Te amo". Espio mais uma vez a cena no Jaguar. Por um segundo, meus olhos se encontram com os da mulher, que geme.
Bruscamente, sou puxada pelo meu parceiro de volta ao nosso carro. Trancamos as portas. "Tire a meia e a calcinha", ele me ordena. Obedeço. Ele se inclina sobre mim e beija suavemente meus seios. "Agora, abra as pernas”.

Não acendemos as luzes internas de nosso carro. Mesmo assim, de vez em quando abro os olhos e vejo um ou outro vulto lá fora, espreitando-nos a uma certa distância, respeitosamente. (Ahhhh... mas e as camisinhas e lenços de papel??? não vão usar??? me antecipei nos elogios no começo da matéria... rs rs)

Essa experiência faz parte de um dos mais libertinos jogos sexuais do momento: é o dogging, uma mistura de voyeurismo, exibicionismo e swing ao ar livre. Para conseguir realizá-la, tive de passar semanas me comunicando com homens e casais pela internet, confirmando a hora e o local de encontros por telefone celular, através de mensagens de texto, e visitando sem sucesso alguns dos 260 sites espalhados pelo país.

Made in England, a brincadeira que virou mania nacional e ganha cada dia mais adeptos (28 mil cadastrados no site mais popular, o SwingingHeaven, e 22 mil num grupo de discussão do Yahoo) consiste em assistir a transas ou transar em lugares públicos, em geral estacionamentos de parques remotos, isolados do burburinho das grandes cidades e, quando de noite, absolutamente ermos e escuros. (O Dogging chegou ao Brasil a alguns anos, não com tanta força como na Inglaterra, até pelos riscos envolvidos, aqui só o fato de parar o carro em uma praça ou rua escura já expõe o casal ao risco de um assalto.)

Os dogging sites, como são chamados, lembram as lover's lanes, vielas, becos e travessas escuras de cidades nos anos 70 onde casais de namorados ou prostitutas e seus clientes se embrenhavam para fugir dos olhos de policiais, enquanto voyeurs espreitavam a cena.

Hoje em dia, fazendo uso de cerca de 60% dos parques do Reino Unido, casais realizam as fantasias sexuais mais bizarras sabendo que são observados pelos olhos atentos de grupos de homens solitários, os doggers. Dependendo do astral da dupla, eles são convidados para a festa. A cena acontece dentro do carro, no capô, no chão, num banco, no meio das árvores ou numa mesa de piquenique. (Em São Paulo algumas praças se tornaram ponto de encontro de Doggers, como o mirante da Lapa, a rua Curitiba e o Parque Ibirapuera.)

Os praticantes são gente que gosta da adrenalina de cometer um ato ilícito, fora do normal, depravado, até mesmo macabro. Parar o carro no meio do nada, no breu dos breus, tentar identificar os vultos que perambulam pelo local e, se você estiver com sua gata, ver seu carro rodeado por um bando de figuras estranhíssimas, na grande maioria homens sedentos, é de arrepiar.

Dogging é para quem tem espírito de aventura quando o quesito é sexo.
As coisas se tornam mais confortáveis na segunda ou terceira tentativa, quando você se dá conta de que, afinal, esse esporte foi criado em um solo que goza de uma longa e estável democracia e você está lidando com um bando de cavalheiros. Obscenos, mas ainda assim cavalheiros. Até mesmo a polícia deixou de dar batida nos dogging sites.

Para se dar bem na onda do dogging é preciso ter muita, mas muita paciência. A não ser que sua vontade seja mandar bala em público. Nesse caso, não há coisa mais fácil, já que os dogging sites estão sempre abarrotados de voyeurs ávidos por assistir a uma tórrida ceninha de sacanagem. Mas se o que você deseja é assistir a uma proeza sexual, descolar uma gata ou se juntar a outros casais, o negócio é reclinar o banco do carro e esperar, esperar e esperar. (Existem regras entre os Doggers que infelizmente nem sempre são respeitadas. Para evitar os curiosos que aparecem, fazem barulho e não respeitam as regras os casais se organizam e marcam encontros através da internet, variando os locais de encontro e procurando manter um certo segredo sobre datas e locais. Por um lado isso evita a presença dos curiosos, por outro lado perde grande parte da emoção de quebrar regras, do inusitado, do casual.)

Presenciar as luzes internas de um veículo se acenderem - o sinal de que o casal convida a platéia a assistir à performance - é um milagre. Se tiver ainda mais sorte, as janelas se abrirão, sugerindo que o povo está convidado a entrar no samba. Se você deparar com uma mulher em seu conversível, desacompanhada e sedenta para se entregar, sem cerimônia nem timidez, ao primeiro que aparecer... - aí, meu amigo, você foi abençoado. Cuidado: luz traseira piscando é para gays. (Cuidado!!! na hora do vamos ver, passe para o banco do passageiro, evitando pisar no freio por acidente!!! rs rs)

Como ensina Alan - apelido de um dos membros do site SwingingHeaven com quem troquei algumas figurinhas -, um dogger legítimo é aquele cara que freqüenta quase todos os dias os dogging sites na calada da noite. Inofensivo, submisso e dono de um faro invejável, ele é capaz de ficar horas e horas sentado no banco de seu possante, no breu, à espera de ação.

Quando um casal aparece, ele o trata com o maior respeito.(Quando o pessoal daqui aprender a tratar os casais com respeito, garanto que muitos mais casais participarão e com maior freqüência) Caso sua caça se embrenhe pelo mato, ele a persegue sorrateiramente, no melhor estilo dogger, sem perder um só movimento. No escurinho, a caça vira o caçador, exigindo o que quiser do dogger. Para ele, qualquer pedido é uma ordem. Muitas vezes, no entanto, o dogger volta para casa de cabeça baixa, com o rabo entre as pernas. Nada que o iniba. Na noite seguinte, lá está ele, de rabo empinado, farejando os dogging sites à espera de sua ração diária. (Paciência e perseverança são caracteristicas fundamentais para um dogger)

O caminho pode ser encurtado. Para saber onde e quando rola a melhor festa ou marcar seu próprio encontro com outros casais e mulheres, o segredo é fazer uso de duas poderosas armas da sedução, a internet e o celular. Isso não significa, no entanto, que as dificuldades foram extintas. A possibilidade de cair nas garras de homens que se passam por donzelas ou casais e passar a noite num estacionamento abarrotado de homens é enorme. (Internet permite tudo, qualquer um se passa pelo que quiser, mas com um pouco de experiência e alguns cuidados é possível reconhecer os "fakes", a manedira de escrever, pensar e os interesses desmascaram o fake.)

Com o tempo, no entanto, você vai pegando a manha da brincadeira. Casais costumam estender a conversa para o telefone. Também pedem fotos, o que não é recomendável. A decepção pode ser grande e, no fim das contas, você estará arruinando o espírito da brincadeira, já que dogging significa extrapolar a barreira da vaidade e da aparência e considerar o ser humano da cintura para baixo (no caso de uma mulher, do pescoço para baixo). O suspense é indispensável.

Além disso, o dogging não existe sem os doggers. Encontro apenas entre casais não é dogging. Os vultos solitários que vagam pelos parques e estacionamentos do Reino Unido na calada da noite formam o coro perfeito para exibicionistas. Voyeurs de carteirinha estão sempre à disposição de quem quer se mostrar.

"Uma vez assisti a um casal de lésbicas orientais que tinham vários brinquedinhos e experimentaram todas as posições possíveis dentro do carro. Foi uma maravilha", me conta um senhor de cabelos grisalhos, ex-caminhoneiro, no estacionamento do reservatório Entwhistle, em Bolton, Lancashire, na minha terceira incursão (frustrada) nesse novo mundo. Depois de passar mais de uma hora sentada no carro, resolvi esticar as pernas e... socializar. Enquanto batíamos um papo recheado de piadas e narrações das mais bizarras cenas de sexo, ele me disse que é voyeur há mais de 25 anos. Atualmente, passeia pelo estacionamento com seu cachorro, um terrier, quase toda noite, enquanto sua mulher fica em casa, vendo televisão. Um dogger legítimo.

"Outro dia tive a sorte de transar com uma mulher linda, loira, enorme", diz, orgulhoso, um outro senhor de óculos de aros enormes, careca, retraído, que me abordou em Silburn. "Ela entrou no mato, convidando-me a segui-la. Mas era tão alta que precisei subir no tronco de uma árvore que estava caído no chão para dar conta do recado”.

Segundo pesquisa realizada no ano passado pelo psicólogo Richard Byrne, professor da Universidade de St. Andrews, na Escócia, os participantes do dogging são, em sua grande maioria, cidadãos brancos, de classe média, entre 30 e 50 anos de idade. É um esporte de anormais, tarados, maníacos, pervertidos, promíscuos, seres solitários, putas e vagabundos. Mas quem nunca se pegou fantasiando cenas de sexo mais picantes? (Em qual categoria você se encaixa? Anormal, tarados, maníacos, pervertidos, promíscuos, solitários, putas ou vagabundos??? Talvez um pouco de cada, talvez em nenhum. Questiono a credibilidade de um psicólogo que sai rotulando pessoas em função de uma fantasia.)

"Um dia, dei de cara com a mulher de um amigo dando para três. Vi de tudo por aqui, inclusive uma policial saciando uma fila de homens", conta o senhor em Silburn, soltando uma última observação enquanto caminhamos em direção ao Jaguar que acabara de ter suas luzes acesas. "Este lugar não é para garotas como você... Hummm, será que terei o prazer de assisti-la?”.

Extraido da revista Playboy (Com comentários deste editor entre parenteses).
Fotos: Playboy e sites
http://www.dogging.in/index.html
http://www.britishdoggers.com/indexclean.html

 

 

Beijos e Abraços
Carlão do Prazer em Dobro

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